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Um conto de Natal… diabético?

Neste conto de Natal, como sempre, também é noite de Natal. Só que os fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro estão mais, como dizer… antidiabéticos?

O ano é o de 2020 (sim, aquele que todos vamos querer esquecer rapidamente). O local, Portugal, numa cidade do interior onde faz muito frio e neva. A hora, as 19h do dia 24 de dezembro. O nosso protagonista, o Sr. José Come Bem e Mexe-Pouco, um funcionário da repartição local das finanças. Estão, portanto, reunidos todos os ingredientes necessários a um verdadeiro conto de Natal.

Faz frio… 

Ora por entre a neve, se olharmos com atenção, vemos o Sr. José a sair da repartição das finanças de onde trabalha. É fim de expediente e o Sr. José vem maldisposto. Há três motivos principais para isso:

 

Antes de mais, trabalha numa repartição de finanças. Não é que ele não goste do trabalho. Aliás, se tiver que responder nos próximos Censos à pergunta «Se tivesse de descrever o seu fim de semana perfeito numa frase, o que diria?» (o Sr. José não faz ideia se os Censos perguntam gostos e interesses), o Sr. José era bem capaz de responder «ficar sentado, sozinho, a fazer o IRS»; não, o que o Sr. José não gosta é de pessoas e as pessoas, infelizmente, vão às finanças. E o Sr. José, espantem-se, trabalha no atendimento ao público.

 

O segundo motivo da má-disposição tem que ver com o facto de ser Natal. E o Sr. José odeia o Natal. Odeia que esteja tudo de férias. Que metade das pessoas não trabalhe dia 24. E, pior, que vá tudo a correr para casa encher o bandulho na véspera de (absurdo!) um feriado a 25!

… e o Sr. José tem diabetes

O terceiro é recente e tem vindo a atormentá-lo mais de dia para dia: foi-lhe diagnosticada diabetes. A ele, que sempre se gabou de nada lhe pegar.

 

Ora vai o Sr. José entretido a rezingar consigo mesmo estas atribulações todas, passa por um miúdo agarrado a um telefone, tem tempo de comentar a alta voz para quem o quiser ouvir como esta geração está perdida e, como quem não quer a coisa, está à porta de sua casa. Ufa, agora é jantar à pressa e cama. Não há cá medir a maldita glicemia como o médico lhe recomendou. Pior do que isso só se fosse assistir a banalidades da quadra na TV. Credo.

 

Mete então a chave à porta, entra apressado e é recebido por uma figura enorme que paira no corredor.

 

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55.

Quando o Pai Natal descobriu que tinha diabetes

O fantasma do Natal Passado  

— Ai Jesus, mãezinha do Céu – ao Sr. José quase que lhe dá uma hipoglicemia daquelas, parece que há situações em que somos todos crentes, vá-se lá perceber porquê.

 

— José Come Bem e Mexe-Pouco, sou o fantasma do Natal Passado. Isto da diabetes ainda vai acabar mal para ti. Lembra-te de como eras antigamente. Rezingão sempre foste. Mas pelo menos eras um jovem que fazia o seu exercício, que se alimentava várias vezes ao dia. Que ia ao médico regularmente e era bem amigo do farmacêutico da rua, rua, rua, rua… – aqui o fantasma fez eco. Os fantasmas, não se sabe bem porquê, fazem eco.

 

—  Põe-te fino! – e desapareceu.

 

Escusado será dizer que o Sr. José ficou a tremer que nem varas verdes. Mal recomposto, descabelado e meio amassado, arrastou-se para a sala de onde, da lareira, uma outra figura lhe salta à vista.

O fantasma do Natal Presente  

— Apre que é demónio! – quase que tem uma nefropatia ali mesmo na carpete.

 

— José Come Bem e Mexe-Pouco, isto parece uma anedota, mas é um conto de Natal. Eu sou o fantasma do Natal Presente. Ainda hoje te vi: não tomaste o pequeno-almoço, saíste a correr para a repartição, passaste a manhã sentando e enervado e ao almoço carregaste bem na comida e na bebida. Não admira que essa barriga cresça a olhos vistos. A juntar a isto não foste levantar a medicação que o médico te recomendou, nem medes a glicemia regularmente. És, em resumo, um fator de risco ambulante. Vergonha! – esta última palavra soou gutural, que é outra coisa que os fantasmas fazem: soar guturais.

 

—  Toma cuidado! – e desapareceu.

 

Não sabendo onde se enfiar, o Sr. José correu como nunca, direitinho para o quarto e trancou a porta. Meteu-se debaixo da cama e, surpresa, uma terceira figura materializa-se vinda parece que do nada.

O fantasma do Natal Futuro

 

—  É agora que me vou! – sobe-lhe o IMC, abate-se-lhe a retinopatia na vista, desregula-se-lhe o glucagon.

 

— Então tudo bem? – uma voz simpática cumprimenta-o – Olha, Zé, eu sou o fantasma do Natal Futuro. Isto de ser fantasma tem muito que se lhe diga, há quem diga até que eu devia fazer eco ou soar gutural, mas eu não gosto muito de clichés, por isso aqui vai. Está bem que a diabetes é uma coisa séria, mas, se controlada, pode não ser um bicho de sete cabeças assim tão grande. Primeiro, vais começar a alimentar-te melhor. Depois, vais fazer exercício regularmente. Tomas a medicação que o médico te recomendar religiosamente. E medes a glicemia todos os dias. Se tiveres dúvidas olha, dizem que há por aí uns websites muito porreiros para isso. ‘Tá bom? Vá, porta-te bem e lembra-te: o futuro não tem de ser negro.

 

E nisto, liga-se a luz do quarto porque o fantasma do Natal Futuro não é de deixar nada ao acaso.

É Natal!

O Sr. José é um homem novo. Sai de casa a correr e corta para a rua de onde há algumas horas voltava do trabalho. O sino da igreja toca as 12 badaladas. É dia de Natal.

 

A sair de casa, para levar o cão a passear, encontra o jovem com quem ainda há pouco se cruzou.

 

—  Oh, rapaz, acaso não sabes de uma farmácia de serviço, não?

 

—  Não sei mais posso ver – saca do telefone, faz uma pesquisa rápida e obtém a informação – Mas qual é a pressa?

 

—  Tenho a glicemia para medir, medicamentos para tomar e duas ou três dúvidas sobre o meu pequeno-almoço de amanhã. Obrigado, muito obrigado! E Feliz Natal! É a minha época favorita do ano.

 

O Sr. José sai disparado, a correr. Adivinha-se o fim do conto, mas neste caso não há estrelas no céu. Só a luz do telefone do rapaz ilumina a rua escura. O cão ladra. E a caravana só não passa porque… vá lá, caravanas em Portugal?

 

Da equipa da Diabetes 365º para si e para toda a sua família: um Feliz Natal! Com a diabetes sob controlo.

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